A MANCHA ROXA | Entrevista com o elenco

A MANCHA ROXA | Entrevista com o elenco

Com o espetáculo “A mancha roxa” a turma 17 está em cartaz em curta temporada celebrando a sua formatura na Escola Nacional de Teatro de Santo André.

Tive a oportunidade de assistir à estreia da peça. Fiquei positivamente bem impressionada tanto com a excelente atuação de cada uma das atrizes e do ator separadamente como em grupo.

Todos mergulharam em um texto denso escrito por Plínio Marcos no final dos anos 1980 com um tema que ainda hoje e triste e delicado e apresentaram com maestria.

O uso inteligente do cenário que exige equilíbrio emocional e físico das atrizes, a recepção que o ator faz aos convidados já no embalo do espetáculo e o ritmo bem marcado são apenas alguns dos bons detalhes da peça dirigia por Luiz Campos.

A Mancha Roxa - Escola Nacional de Teatro - Grande ABC Cultural

 

O Grande ABC Cultural conversou com o elenco para saber como foi a experiência de cada um na Escola Nacional de Teatro e quais foram os desafios e emoções de encenar essa peça.

 

Kelly Vieira (Santa)

Kelly Vieira - A Mancha Roxa - Grande ABC Cultural

Minha experiência na ENT foi incrível, foram mais de três anos de muito aprendizado, os professores que passaram por nós (onde a maioria já não faz parte do corpo docente) nos fez os artistas que somos hoje. A parceria do grupo como turma ajudou muito também.

 

Os desafios de fazer “A mancha roxa” sem dúvidas é a temática, é um tema muito necessário, mas muito desafiador. (A penitenciária e o vírus HIV) e como essas pessoas são, de fato, esquecidas, não ouvidas, por todos.

A minha personagem, que é a Santa, tem momentos e falas pontuais, mostrando tanto a hipocrisia da sociedade em seus versículos, muito bem pensados pelo autor, e também a hipocrisia da própria religiosa.

Foi bem difícil alcançar os picos de fé que minha personagem tem, já que não sigo nenhuma religião. Mas foi maravilhoso todo o processo.

 

Bianca Paschoal (Isa)

Bianca Paschoal - A Mancha Roxa - Grande ABC Cultural

Estudei na ENT por quase oito anos, lá conheci pessoas incríveis que quero levar para a vida (como as pessoas com quem estou me formando agora, por exemplo).

Durante meu tempo na ENT eu fiz os cursos: infantil, infantil avançando, juvenil, juvenil avançado (2 vezes), preparação, técnico e jogos teatrais, todos eles me trouxeram muitos aprendizados e conhecimentos.

 

Um dos maiores desafios para mim foi o fato da minha personagem ser viciada em heroína, precisei pesquisar e estudar muito sobre os efeitos dessa droga para entender como minha personagem se sentia. Além disso, a Isinha é uma personagem que está presa e doente, então, eu precisei trazer características para o meu corpo que não são minhas.

Outro desafio que não poderia deixar de incluir é o de montar, desmontar e me movimentar pelo andaime, mas tivemos preparos para fazer isso com segurança (Mesmo assim eu consigo bater a cabeça no andaime em todos os ensaios e apresentações hahaha).

As emoções são muitas. Alegria por estar fazendo o que eu amo, ansiedade por me apresentar, nojo da forma que o Estado trata as mulheres do xadrez.  Quando estou apresentando, as emoções são da Isa e não exatamente minhas, a Isa sente emoções diferentes das que citei (o medo é uma delas).

 

Anabelle Costa (Doutora)

Anabelle Costa - A Mancha Roxa - Grande ABC Cultural

Minha experiência na ENT é uma grande jornada, considerando que iniciei no curso Infantil ainda em 2012 e passei pelos cursos Juvenil, Preparação de Atores e, desde 2017, o Curso Técnico em Teatro. Tive ótimos professores, tive também oportunidade de assistir a peças de muitas turmas com diferentes estilos e propostas. Acredito que, para minha formação, isso agrega na consciência da diversidade que a arte traz.

 

“A Mancha Roxa” surgiu para nós como alternativa nesse período pandêmico. Nos preparamos por muito tempo para nos formar com um texto autoral, mas nas atuais condições teríamos apenas dois meses para colocar tudo o que idealizamos no palco. Por isso, optamos por deixar o texto para o Grupo XVII (grupo formado por alguns membros da turma, de forma profissional) e investir em uma obra já escrita.

Com apenas dois meses de ensaio, o diretor Luiz Campos foi capaz de equilibrar nossas vontades e o seu próprio estilo de direção. Estamos felizes com o resultado, nossas ideias couberam num contexto ainda pandêmico em que temos que respeitar o distanciamento e tomar os devidos cuidados. Como turma, nos formar com um texto que nos foi apresentado no início do curso é de grande emoção. Claro que nem tudo são flores no processo de levantar uma peça, mas unidos nós pudemos controlar as emoções negativas e usar nossa energia para imergir no texto de Plínio Marcos. Estamos gratos por aqueles que nos apoiaram, que torcem pelo nosso sucesso e por encerrar o curso com grande satisfação.

 

Natália Freitas (Professora)

Natália Freitas - A Mancha Roxa - Grande ABC Cultural

Comecei na ENT fazendo o curso de preparação de atores há mais ou menos sete anos, fiz diversos cursos extras que a escola disponibilizou. Por meio da escola tive a oportunidade de assistir a diversos espetáculos o que proporciona ao aluno uma vivência maior nos palcos, inclusive, acho que a administração da escola poderia voltar a incentivar os alunos a irem ao teatro, já que isso ficou um pouco esquecido, a essência do teatro não pode ser esquecida, é o que mantém diversos artista vivos no mundo.

Os professores são excelentes profissionais, não tem nem o que reclamar deles, todos de alguma forma me marcaram e me ensinaram muito, tenho muita gratidão por eles e cada um deles tem um lugar especial no meu coração. Em especial o Luiz que fez parte desse fim de ciclo, com muita dedicação, paciência, responsabilidade, enfim, eu só tenho elogios a esse grande diretor.

 

“A Mancha Roxa” é uma peça difícil de montar, ela exige muita consciência, estamos falando de mulheres que enfrentam o sistema carcerário no Brasil na década de 1980, que já conseguiu ter algumas mudanças positivas, mas que ainda é um sistema muito precário, sofre com o abandono total, estamos falando de pessoas que não tem o básico para higiene pessoal.

É uma responsabilidade muito grande, o texto também fala sobre o HIV, que na época era como se recebesse uma sentença de morte, que graças à ciência hoje em dia há tratamento.

É uma peça atemporal, estamos falando sobre a mancha roxa que nos dias atuais pode ser relacionada ao Covid, quem é que se importou com a população carcerária nesse período pandêmico, ou até mesmo com os moradores de rua.

Meu personagem é a professora, um presente que recebi de formatura, uma mulher muito consciente em relação às classes, luta por aquilo que acredita e faz pelos seus.

Eu não poderia encerrar esse ciclo de outra forma, tinha que ser grande como os sonhos da professora e um misto de emoções, feliz e orgulhosa por ter chegado ate aqui, por ter conhecido pessoas incríveis que vou levar comigo pra vida, estamos encerrando um ciclo que esta nos proporcionando começarmos algo que sempre acreditamos, não é o fim é só o começo. Agora formados, a maior parte do elenco, nos unimos ainda mais e formamos o Grupo XVII de teatro.

 

Leila Gimenez (Linda)

Leila Gimenez - A Mancha Roxa - Grande ABC Cultural

Ao longo desses quatro anos de curso técnico em Teatro, tive a honra de ter experiências com professores excelentes, professores de interpretação, corpo e movimento, voz, teoria, etc. O Teatro foi fundamental para meu crescimento profissional e pessoal, pude obter muitas descobertas durante a formação.

Quando nós escolhemos essa peça sabíamos que seria um grande desafio, pois “A Mancha Roxa” foi escrita em 1988, um texto super difícil, temas fortes e pesados.

 

Sobre as emoções, foram muitas. Assim que soube que ia iria fazer a “Linda”, percebi a responsabilidade e comprometimento com esse trabalho, afinal, essa personagem não foi fácil de construir, ela tem muitas nuances na personalidade, sem contar o fato dela ser presidiária, um mundo em que nunca tive acesso, bem distante da minha realidade, foi um prazer imenso interpretá-la.

Apareceram várias emoções durante a montagem, tive inseguranças, o fato do cenário ser um andaime, tive que superar o medo de altura, precisei aprender a subir e descer de lá com segurança e flexibilidade. Por outro lado me diverti demais fazendo a “Linda”, ela também tem seu lado cômico.

 

Totta (Tita)

Totta - A Mancha Roxa - Grande ABC Cultural

A ENT pra mim foi uma segunda casa, foram 7 anos e 4 meses dentro da escola, e durante esse período eu evoluí e aprendi muito, eu, literalmente, cresci lá dentro, dos 13 aos 20 eu vivenciei muita coisa.

Toda essa minha trajetória contribuiu muito para minha evolução pessoal, sem isso eu não tenho ideia de quem eu seria. Contribuiu muito também para meu desenvolvimento profissional, é claro, pois pude me profissionalizar naquilo que é meu sonho desde criança, a atuação.

Devo imensa gratidão a todo o apoio e aprendizado que a escola pôde me oferecer. Assim como qualquer outra casa, a ENT não é perfeita, mas, como diz Vinícius de Morais em sua música, é feita com muito esmero”, e foi dentro dessa casa que eu tive a oportunidade de cruzar o caminho de muita gente especial, talentosa e inspiradora, assim como eu tive o meu caminho cruzado por essas pessoas.

Espero que muitas outras pessoas tenham a oportunidade de experienciar a vivência que eu tive dentro da escola, mesmo que não seja na ENT, pois me edificou e dignificou muito.

 

Essa nossa montagem de formatura é o nosso desabafo, nossa chave de ouro, nossa canção do cisne. Ela é nossa forma de expressarmos tudo o que aprendemos, tudo que somos capazes e tudo que queremos dar luz para que fomente discussões, para que haja mudanças, pois esse é o grande objetivo da arte, no qual eu acredito, originar mudança, evolução, crescimento.

Foram dois meses de ensaio, pouquíssimo tempo que tivemos para entregar um bom trabalho, para nos entregar por completo, afinal é a nossa formatura. E acredito conseguimos, demos nosso sangue, suor e poupamos as lágrimas para o grande final. Colocamos nossas diferenças de lado e focamos em nosso objetivo em comum: finalizar esse grande ciclo, que nos marcará até o fim de nossas vidas.

 

Mike Oliveira (Grelão)

Mike Oliveira - A Mancha Roxa - Escola Nacional de Teatro - Grande ABC Cultural

Eu entrei na ENT no inicio de 2016 depois de um momento difícil em minha vida que me fez acordar para certos pontos e deu coragem para ir atrás do que sempre quis fazer desde muito novo, teatro.

Comecei pelo curso de desinibição, pois ainda sentia muita insegurança em fazer teatro, mas ali percebi que aquilo me faria feliz e é o que eu queria para minha vida.

De lá para cá, nestes últimos cinco anos foram muitos desafios que me fizeram crescer como artista, me encontrar e reencontrar a todo o momento. Sou grato a todas as oportunidades que recebi dentro da ENT, pois me fizeram aprender muito.

Agradeço aos mestres que passaram pela minha vida durante o curso (Walmir Bess, Renato Jacob, Lucia Branco, Amanda Massaro, André Castelani, Renato Mendes, Guilherme Udo, Ariana Slivah, Fernanda Gazito, Andrea Weber, Vanessa Furtoso, Daniela Flor, Giulia de Castro, Natalia Quadros) por todo o ensinamento que me deram. E um agradecimento especial com todo meu amor aos atuais e antigos integrantes da Turma 17 do Curso Técnico em Teatro da ENT e ao nosso querido professor e diretor Luiz Campos que tem grande parcela de culpa em tudo que nos tornamos, positivamente dizendo. Ele fez com que a chama que já existia dentro de nós ardesse e se espalhasse para todo canto. Eu sempre digo que a combinação do Luiz com a turma 17 foi excelente para nós e péssimo para outros (risos).

 

Montar um espetáculo publicado em 1988 já é um desafio por si só, pois num espaço de tempo com mais de 30 anos muita coisa muda, muitas informações se atualizam. A visão do HIV/AIDS se transformou muito nesses anos e o que na época era basicamente uma sentença de morte, nos dias atuais há como viver normalmente realizando o tratamento de maneira correta.

No texto original havia pequenas desinformações que inicialmente preocupou a turma, pois por se tratar de um assunto tão delicado não queríamos passar alguma mensagem errada ou até ferir alguém. Já existe muita desinformação quando se trata desse assunto, as pessoas ainda possuem muito preconceito e nós não poderíamos ser responsáveis por agregar mais informações falsas para nosso público.

Estudando o texto, conhecendo melhor e fazendo pesquisas sobre a pauta sobre o HIV/AIDS, conseguimos chegar a um consenso de como seria o texto e acredito que este resultado final ficou satisfatório a todos.

O texto em si não traz muitas informações sobre o HIV/AIDS, talvez pela época em que foi escrito já que era o auge da epidemia e quando a doença chegou ao Brasil. Na verdade, o texto faz uma denúncia sobre como essa pauta atinge uma parcela da população que é tão esquecida e como nós sendo a sociedade não nos preocupamos com isso. Afinal, se trouxermos esse descaso para a atualidade, há alguns meses havia pessoas defendendo os testes das vacinas para serem testadas na população carcerária.

Hoje em dia o HIV/AIDS possui tratamento pelo SUS totalmente gratuito, onde uma pessoa que vive com o HIV e faz o tratamento corretamente possui uma vida normal que ao chegar ao nível indetectável do vírus não há chances dela transmitir a outras pessoas. A medicina evoluiu muito nestes últimos anos e graças ao SUS conseguimos garantir uma vida normal e saudável as pessoas que vivem com HIV. Falta o nosso governo trabalhar a conscientização da população.

Sobre minhas emoções, confesso que inicialmente não queria voltar para o processo de formatura. Era para nós termos nos formado em junho de 2020, mas aconteceu a pandemia que ainda está ai nos atormentando. Quando foi decidido voltar em outubro desse ano, meu sentimento foi de não voltar, afinal, no papel eu já estava formado, mas como me comprometi voltei. Inicialmente foi bem difícil e agridoce, mas hoje percebo que foi a escolha certa, pois apesar dos apesares aprendi muito e pude reaprender a subir no palco. Estou feliz em finalizar minha jornada na ENT com este texto e com essas pessoas ao meu lado e ansioso para o que 2022 está preparando para nós.

Fiquem ligados, vocês ouvirão muito sobre o Grupo XVII de teatro.

 

 

A Mancha Roxa - Escola Nacional de Teatro - Grande ABC Cultural
Elenco com o diretor Luiz Campos e equipe

 


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