Entrevista com Leo Alkemade, ator do filme “Champagne”
Leo Alkemade, ator, roteirista e comediante holandês, detalha na entrevista ao Portal Grande ABC Cultural como foi a convivência com Huub Stapel no set de “Champagne – Uma viagem de pai e filho”, a escrita do roteiro e a sua relação particular com o filme.
Grande ABC Cultural: Você transformou uma experiência profundamente pessoal em uma obra de ficção. Quando percebeu que essa história deixava de ser apenas sua e poderia dialogar com pessoas de diferentes lugares?
Leo Alkemade: Cada família é diferente, cada relação entre pai e filho é única, mas temas como amor, arrependimento, desentendimento, perdão e o desejo de realmente enxergar um ao outro são universais. Quanto mais honesto eu fui em relação a essas emoções, mais percebi que essa poderia ser a história de qualquer pessoa. Esse é o belo paradoxo: quanto mais pessoal você é, mais universal isso tende a ser.
GAC: Durante a escrita do roteiro houve mais descobertas na relação sua com seu pai, mais memórias surgiram?
LA: Certamente. A escrita tem uma maneira de trazer memórias que eu nem sabia que ainda estavam ali. Às vezes, não foram os grandes momentos que voltam, mas pequenos detalhes: um silêncio no carro, uma piada, um olhar ou um hábito. Eu também me vi olhando para o meu pai com mais compaixão. Como filhos, nós geralmente vemos nossos pais a partir de nossas próprias experiências. Enquanto escrevia, eu comecei a pensar mais sobre quem ele era além de ser meu pai: seus medos, seus sonhos e suas decepções. Isso me deu uma perspectiva diferente e ajudou a moldar o filme.

GAC: Como foi construir a dinâmica entre pai e filho ao lado de Huub Stapel? Houve espaço para improvisação?
LA: Trabalhar com Huub Stapel foi um grande privilégio. Ele traz muito calor humano, humor e profundidade emocional para cada cena. Por confiar muito um no outro, houve definitivamente espaço para o improviso. Nós sempre começamos pelo roteiro, mas se algo parecesse mais autêntico naquele momento, nós exploramos isso. Aqueles momentos espontâneos se tornaram alguns dos meus favoritos porque capturavam a imprevisibilidade das relações familiares reais.
GAC: O gênero road movie costuma apresentar transformações de personagens à medida que a estrada avança. Qual foi a principal mudança que você queria mostrar em Maarten e houve alguma em você também?
LA: Para mim, a maior transformação do Maarten foi aprender a se desapegar da imagem que ele carregou do pai por tantos anos. Todos nós criamos histórias sobre as pessoas mais próximas a nós e, ás vezes, essas histórias nos impedem de realmente enxergá-las. Durante a viagem, ele descobre que compreender nem sempre vem ao obter todas as respostas. Isso também pode vir da aceitação das imperfeições.
GAC: O filme estreia no Brasil na semana do Dia dos Pais. Que tipo de conversa você espera provocar entre pais e filhos depois da sessão?
LA: Eu desejo que o filme encoraje as pessoas a terem conversas que vêm adiando. Não precisam ser conversas dramáticas, às vezes, apenas perguntar: “Como você realmente está?” ou compartilhar uma memória já basta. Eu também desejo relembrar a pais e filhos que nunca é muito tarde para ter curiosidade sobre o outro. Geralmente, assumimos que conhecemos quem mais amamos, mas sempre há o que descobrir. Se “Champagne” inspirar algumas famílias a deixar o cinema e conversar um pouco mais abertamente, eu consideraria que é o melhor elogio que o filme poderia receber. E a mensagem mais importante é esta: não espere pelo momento especial para abrir aquela bela garrafa de champanhe, mas crie o momento abrindo-a hoje.
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